A Fauna no concelho de Boticas

– Património Natural como uma mais-valia nas zonas rurais

O concelho de Boticas apresenta, juntamente com um vastíssimo património cultural, material e imaterial, um património natural rico e diverso, onde se incluem, entre outros, os valores florísticos e os valores faunísticos. No caso particular da fauna é possível observar, neste concelho, uma panóplia de espécies de vertebrados e invertebrados, grande parte com importância conservacionista. Esta riqueza é também propiciada pelos variados biótopos que aqui podem ser encontrados, referindo-se, entre outros, os carvalhais, os bosques ripícolas, os cursos de água, os matos e os lameiros.

Lameiro em Boticas – © Célia Gomes

Nos mamíferos, mencionam-se desde logo o lobo-ibérico (Canis lupus signatus) e o corço (Capreolus capreolus), animais emblemáticos e presentes neste concelho. O javali (Sus scrofa), o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) e a lebre (Lepus granatensis), espécies com elevada importância cinegética, possuem uma presença expressiva. Salientam-se também outras espécies, estas associadas às linhas de água, como a toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) e a lontra (Lutra lutra). Podem ainda ser observadas diversas espécies de morcegos, das mais comuns e abundantes, como o morcego-pigmeu (Pipistrellus pygmaeus), às menos conhecidas, como o morcego-rabudo (Tadarida teniotis).

Corço (Capreolus capreolus) – © Célia Gomes

Contemplando agora o grupo das aves, talvez o mais procurado nas actividades turísticas ligadas à observação de fauna, convém referir duas particularidades que se prendem com esta classe:

– 1.ª Para além das espécies residentes, que podem ser observadas na região durante todo o ciclo anual, há espécies que apenas podem ser observadas ou no período de primavera/ verão – designadas nidificantes estivais, como a rola-brava (Streptopelia turtur) –, ou no período de outono/ inverno – designadas invernantes, como a petinha-dos-prados (Anthus pratensis). Existem ainda espécies, que durante a migração que efectuam, podem ser registadas na área apenas como migradoras de passagem, não permanecendo na zona durante um período alargado.

– 2.ª Os diferentes biótopos presentes no concelho potenciam uma maior diversidade de espécies – isto porque há espécies mais ligadas, pelas suas especificidades, a um determinado habitat. A procura de uma determinada espécie deverá ter sempre em consideração o seu habitat preferencial, por forma a aumentar as probabilidades de se efectuar uma observação! Tentar observar uma espécie marcadamente florestal num planalto, diminuirá, com todo a certeza, as nossas hipóteses de conseguir um registo!

Rola-brava (Streptopelia turtur) – © Célia Gomes

Ao organizar saídas de campo direccionadas para as aves, destacam-se, quer pelo seu estatuto de conservação quer pela área de distribuição restrita, a águia-caçadeira (Circus pygargus), o falcão-abelheiro (Pernis apivorus), o melro-das-rochas (Monticola saxatilis), o noitibó da Europa (Caprimulgus europaeus), o picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio), o dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) e o bufo-real (Bubo bubo). Algumas das espécies ribeirinhas e aquáticas que se podem observar nas zonas húmidas de Boticas são: o melro-d’água (Cinclus cinclus), o guarda-rios (Alcedo atthis), a garça-real (Ardea cinerea), o mergulhão-pequeno (Tachybaptus ruficollis) e o pato-real (Anas platyrhynchos).

Noitibó da Europa (Caprimulgus europaeus) – © Célia Gomes

A herpetofauna é muito rica neste concelho, e aqui podem ser encontradas diversas espécies de répteis e anfíbios! Os répteis devem ser procurados maioritariamente em áreas mais abertas e expostas, embora algumas espécies apresentem outras preferências. Os anfíbios, por sua vez, procuram locais mais sombrios e que apresentem humidade, não só para se reproduzirem mas também para hidratarem a sua pele nua.

Cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) – © Célia Gomes

Algumas das espécies que merecem destaque pela sua raridade e/ ou por se tratar de endemismos ibéricos (ou seja, espécies que apenas ocorrem em Portugal e em Espanha) são, entre os anfíbios, a salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica), o tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai), a rã-ibérica (Rana iberica), a rã-de-focinho-pontiagudo (Discoglossus galganoi), e, relativamente aos répteis, o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) e a lagartixa de Bocage (Podarcis bocagei). Nos répteis, convém ainda destacar a presença do cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis), uma espécie ameaçada que possui no PAVT (Parque Arqueológico do Vale do Terva) a maior e mais significativa população da região norte do nosso país.

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Rã-ibérica (Rana iberica) – © Célia Gomes

Em Boticas há um grande número de cursos de água. A extensa rede hidrográfica deste Município é muito interessante a nível da conservação da Natureza e há diversas espécies ligadas à mesma, como fomos referindo ao longo do texto. Entre as espécies de peixes presentes, é obrigatório mencionar a truta-de-rio (Salmo trutta) – esta espécie, característica de troços mais montanhosos dos rios e ribeiras, aprecia águas correntes e bem oxigenadas e é muito valorizada, a nível gastronómico, pelos locais e visitantes.

 

Dos invertebrados, grupo menos conhecido e estudado, mencionam-se, pela sua importância em termos de conservação, uma borboleta, a fritilária-dos-lameiros (Euphydryas aurinia), e um escaravelho, a vaca-loura ou cabra-loura (Lucanus cervus). Pela sua importância nos processos ecológicos, assim como pelo valor económico que possui, é ainda de referir a subespécie Apis mellifera iberiensis, a abelha-ibérica, um dos responsáveis inequívocos pela qualidade do mel do Barroso!

 

Em Boticas podem então ser observadas, ou encontrados indícios de presença, espécies de fauna típicas das serras do Norte, incluindo algumas espécies raras e com estatuto de conservação elevado.

O desenvolvimento rural sustentável – a nível económico, social e ambiental – é, cada vez mais, fundamental para a viabilidade e para o desenvolvimento das diversas regiões portuguesas, uma vez que 81% da área total de Portugal continental é considerada rural, e 33% da população, de cerca de 10 milhões de habitantes, vive em áreas rurais.

Jornadas de Biologia do PAVT – TR

As zonas rurais e as áreas naturais, embora com características únicas e deveras importantes para a sociedade, são, muitas vezes, pouco valorizadas a nível económico. A necessidade, cada vez mais premente, de que se faça um uso dos recursos e/ ou um aproveitamento dos valores, de uma forma racional e em concordância com a conservação da biodiversidade, deverá permitir, no entanto, que ocorra uma mudança de paradigma. O desenvolvimento e o progresso não deverão ser afastados da equação, mas, muito pelo contrário, olhados de uma forma distinta do habitual.

O turismo direccionado para a fruição retirada da observação destas espécies, muitas das quais com relevante importância económica, e realizado de uma forma sustentável e concomitante com o respeito pelas populações locais e pelos valores naturais, poderá constituir um “aliado” no desenvolvimento desta área!

 

Célia Gomes / 28/06/2017

 

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